As regras não escritas da conduta masculina dizem que o
homem não deve demonstrar emoções. Emoção é sinônimo de fragilidade, e esta uma
característica do afeminado. Crescemos assistindo heróis frios, autoconfiantes,
que não precisavam de nada e de ninguém. Lembro que assisti filmes onde Charles
Bronson era a palavra final em virilidade. Enquanto os outros personagens
terminavam os filmes caminhando ao por do sol com a garota, ele deixava a
mulher e seguia sozinho – ou seja, nem da mulher ele precisava.
Talvez exista um pequeno Charles Bronson dentro de cada
homem. Nós o levamos para o casamento, amizades e nos relacionamentos de
família. É o estado mental que diz “Meu coração não precisa ser tocado; na
realidade, eu nem permitiria que alguém tivesse um mínimo deslumbre de meu
coração”. O centro desta mentalidade é o orgulho, e isto é diferente daquela
pessoa que se fechou por causa de uma decepção ou insegurança. O orgulhoso
realmente acredita que suas emoções não precisam ser tocadas por ninguém, e
isto produz uma das mentalidades mais destrutivas que existem. As pessoas negam
que o amor é orgulhoso, sendo que uma das queixas mais comuns que ouço é que
uma pessoa não se abre para a outra nos relacionamentos. Este problema vem
piorando ao longo dos anos e alcançou o nível mais baixo na sociedade atual.
Por causa disto, consideramos alguém forte quando não se expõe para outras
pessoas, que o orgulho pessoal é algo bom.
Novamente, muitos de nós definimos a piedade com o
entendimento invertido que temos de Deus. Os pastores se mostram autoconfiantes
por pensarem que Deus é assim. Quanto mais perto de Deus estiverem, menos
necessidade terão. Acreditamos que o resultado final de ser conformado à imagem
de Deus é que não precisaremos de mais ninguém, pois nossa realização será
encontrada em nós mesmos.
O Deus que fui levado a crer tem a personalidade muito
parecida com a de Charles Bronson. É completamente sem emoções e não precisa de
ninguém. Lembro-me do pregador mostrando que Deus não precisa de nós; nós que
precisamos dele. Temos que escolher entre o caminho de Deus ou o caminho da
rua. E Deus pode se orgulhar, pois é perfeito e, quando é verdade, não é
considerado orgulho. Deus não tem necessidade alguma e podemos nos considerar
sortudos por ele permitir que o sirvamos.
O que ensinamos sobre adoração a Deus prova que cremos que
ele é orgulhoso. Fomos criados somente para adorá-lo e para lembrá-lo de quão
grande ele é. Adoramos, como escravos, em obediência, pois Deus requer toda a
glória para si. Da forma como falamos de Deus, além de orgulhoso, ele também é
desagradável. Se o que falamos sobre Deus fosse atribuído a um vizinho ou
colega de trabalho, nós evitaríamos esta pessoa a todo custo. Precisaríamos nos
esforçar para manter um relacionamento com elas, mas é por isso que precisamos
encorajar uns aos outros para manter a aliança com Deus. Ninguém gosta de uma
pessoa orgulhosa. Ninguém gosta de um Deus orgulhoso. E como estou dizendo,
este pensamento também dirige a vida das pessoas. Os maridos citam o versículo
bíblico para as esposas, que elas não tem autoridade sobre seu próprio corpo, e
sim o marido (1 Co 7:4), culpando-as, e tentando relações sexuais mais
frequentes. E por que muitas mulheres entendem o sexo como algo sujo e não como
expressão de amor? Deus gosta quando o adoramos mesmo quando não estamos
sentindo nada, quando estamos exaustos ou doentes. Imaginamos Deus como aquele
marido sem coração, narcisista, que usa “as regras” para forçar sua esposa para
o sexo. Este emaranhado de ensinamentos produz resultados ruins. O orgulho não
está no coração de Deus e ele nem precisa do nosso louvor. O que ele quer é
relacionamento e a verdadeira adoração é mutuamente edificante e nasce desta
união com ele.
Deus não é orgulhoso
Se não fomos criados para adorá-lo, por que Deus nos criou
então? Somos como animais de laboratório? Ele estava entediado? Por que Deus,
que já tinha tudo, criou um bando de miseráveis? O que poderíamos oferecer que
ele já não tivesse há milhões de anos atrás? A resposta é talvez o mais estonteante
fato acerca do coração de Deus que eu já encontrei: o amor requer expressão.
Isto é um mistério, mas seu amor não era completamente amor sem nós. Nós
completamos, pelo menos em parte, os desejos de Deus. Quer dizer que ele não
tinha tudo o que precisava em si mesmo? Não, mas que ele se tornou vulnerável
para ter um relacionamento conosco e expressar seu amor. Por que isto nos
surpreende? Pois fomos criados à sua imagem e, por isso, temos as mesmas
necessidades. Necessitamos de relacionamentos, de ser conhecidos e compartilhar
nós mesmos com outras pessoas.
Considere um fato recente em minha vida. Após colocar as
crianças pra dormir, minha esposa e eu finalmente teríamos um momento só nosso,
assistindo um filme no aconchegante sofá. Infelizmente, era a noite de Angie
escolher o filme e, em vez de uma história de amor ou uma comédia romântica,
escolheu uma narrativa excessivamente sentimental. Por alguma razão, ela queria
me ver chorar e verificava isto no meio de cada cena mais dramática. Eu pensava
em basebol, no trabalho, e enquanto minha mente vagueava para deixar meus olhos
secos, meu nariz começou a escorrer. Após uma busca mental por uma resposta,
disse que estava resfriado, pois isto me permitiria assoar o nariz e sair da
sala. Infelizmente ela não aceitou e fez o que todo homem mais tem pavor. Com
uma voz infantil ela perguntou: “querido, você está choraaaaandooooo?” Não! Tentei
replicar com um som de ofendido, mas não adiantava – ela estava determinada a
ver meus olhos vermelhos. Ela me pegou. No momento em que eu tentava manter
minha dignidade, algo maravilhoso aconteceu e eu fiquei arrepiado, pois quase
pus tudo a perder. Minha esposa, em vez de estar envergonhada ou decepcionada,
ficou radiante. Ela finalmente encontrou em mim o que buscava desde que nos
casamos. A paixão dela por mim tomou outra proporção. Como se ela precisasse me
ver chorar. Minha demonstração de vulnerabilidade valeu muito mais que
palavras, presentes, flores e poemas. E cai ali completamente por acidente.
Deus busca em você a mesma coisa que minha esposa buscava
naquela noite no sofá. Ela quis me levar a um limite, pois precisava saber que
eu não era uma pessoa impenetrável. Deus age da mesma forma conosco e a coisa
mais maravilhosa é que ele não nos levaria a este limite da vulnerabilidade se
ele mesmo não fizesse isso. Ficar nu e esparramado numa cruz não se trata
apenas de um grande sofrimento, mas da completa vulnerabilidade diante daqueles
que ele amava.
Ao nos criar, Deus se dispôs a se expor como um ser sensível
e vulnerável que procurava relacionamentos autênticos. E ele desejava isso
conosco, mesmo sabendo que poderíamos apresentar alguma resistência. Ele se
despiu de toda glória e expos a parte mais vulnerável de si mesmo simplesmente
porque isto é necessário quando desejamos ter um relacionamento autêntico.
Mesmo sendo um rei, ele não teve problemas em se tornar um
carpinteiro. Suas mãos, que criaram o universo, encontraram o prazer de lavar
pés sujos. Jesus fez isto por serem os pés de quem ele amava. Ele não exigiu
que se curvassem diante dele e prestando a honra que ele tinha direito. Ao
contrário, ele convidou pessoas para andar com ele e os chamou de amigos. Não
havia nenhum osso orgulhoso no corpo dele. E não é o teu medo ou reverência
religiosa que ele está buscando – é o seu coração!
Dizer “Deus nos criou para adorá-lo” é a mesma coisa que
dizer a minha esposa que casei somente para ter sexo com ela. Deus nos criou
para ter relacionamento conosco. Ele pensava num relacionamento de duas vias e
mutuamente edificante. Quando você tem isto com ele e o adora, você está
tocando no coração dele, atendendo as esperanças dele de compartilhar em
comunhão. Ele é realmente movido por você!
Quando visito lugares diferentes, as pessoas me elogiam,
pois querem me edificar e fortalecer espiritualmente. Mas quando chego a casa e
minha esposa fala exatamente as mesmas palavras, isso sim penetra fundo em
minha alma. Isto é mais forte para mim, pois ela me conhece. Há uma grande
diferença quando alguém distante me elogia e quando alguém que sabe tudo sobre
mim diz que me ama. É assim que Deus quer ser adorado. Primeiro ele quer ser
conhecido por você e a adoração será a consumação deste relacionamento. A
adoração não pode preceder um relacionamento e ser significativa – também não
traria beneficio algum. Deus não quer fornicação; ele deseja o casamento
primeiro. Quando você o conhece, você o adora pelo que conhece. Mas ele não
fica sentado lá, e recebendo, sem corresponder o amor que tem por você. Por te
conhecer, isto provoca em Deus uma explosão de sentimentos, da mesma forma que você
está se expressando pra ele. Lembre-se que adoração não é apenas pra Deus, mas
um momento onde ambos podem expressar o amor de um para o outro. Deus é
exatamente como você a este respeito. Ele ama isso.
Algumas pessoas pensam que, quando Deus as torna vulneráveis,
seria uma punição por algo errado que fizeram. E pensam também que um sinal de
maturidade é quando pedimos pouco a ele, que quanto mais perto da piedade
chegarmos, menos necessidade teremos. Nada pode ser mais distante da verdade.
Não sabem que nada aquece mais o coração do pai quando pode expressar seu amor
atendendo as necessidades dos filhos, principalmente aquelas que só ele pode
atender. Por isso Deus não se ofende quando você pede alguma coisa a ele,
especialmente quando você crê que ele pode e vai fazer. Ele anseia pelos teus
pedidos, pois isto satisfaz o desejo dele de ser seu provedor. Sua vulnerabilidade
mexe com o mais profundo do coração de Deus.
Jesus disse que não veio para os que não precisam, mas para
os que precisam dele. O que motivou sua vinda foram as necessidades. Os
desamparados foram o combustível para Jesus fazer o que fez. Os necessitados
inspiraram os milagres e as curas.
Entender que Deus não é orgulhoso me atraiu mais e mais para
ele da mesma forma que minha esposa se sentiu atraída por mim. Mas quando
descobri a verdade do nosso próximo capítulo, não apenas desejo a liberdade de
me aproximar dele, mas atualmente desejo intimidade com Deus como a coisa mais
importante em minha vida.
Tradução livre e resumida do cap. 7 de Misunderstood God –
The lies religion tells about God (O Deus mal compreendido – As mentiras que a
religião conta sobre Deus), de Darin Hufford.

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